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Entre topadas, empurrões e mordidas: o cérebro em campo

As mordidas são comuns e consideradas normais para crianças pequenas. Elas ocorrem como uma forma de expressão dos sentimentos, necessidades e desconfortos que a criança ainda não aprendeu a explicar com palavras. Morder, portanto, nesta fase, equivale a chorar porque tem sono, estender os braços para ganhar colo ou usar expressões verbais que ela já domina, como: não quero, me dá, está quente, etc. Esse recurso de expressão vai sendo abandonado à medida que ela percebe a desaprovação das outras pessoas, começa a desenvolver empatia, entendendo que se fosse nela ia doer e machucar e, finalmente, o aumento da competência para a expressão verbal. O esperado, para o desenvolvimento normal, é que por volta dos três anos a criança já tenha adquirido recursos de expressão e controle de impulso suficientes para ter abandonado essa prática.

Por que, então, um atleta, como Luiz Suarez, adulto, reconhecido por suas habilidades como jogador, bem remunerado e em uma competição entre os melhores futebolistas do planeta, morde o adversário? Por que repete esse comportamento, em uma competição tão importante, quando já havia sido punido duas vezes por morder adversários durante outras partidas? Qual o ponto fraco de Suarez? Ele não aprende?

Embora seja, como para as crianças, uma forma de expressão de seu desagrado no momento, as consequências são incomparáveis, pois sua fase de aprendizado das regras de adequação social e comportamento esportivo, supõe-se, deveria estar concluída. O ponto fraco de Suarez, portanto, está na dificuldade ou incapacidade de controle de impulso em situações de pressão, frustração ou irritação. São aquelas situações em que a pessoa explica uma atitude dizendo que agiu sem pensar. É, de fato, exatamente o que acontece, a pessoa não pensa, apenas reage impulsivamente.

O descontrole de impulso pode estar por trás de uma série de quadros de disfunções neurológicas e comportamentais. Não é nosso propósito, aqui, falar sobre esses quadros, mas sobre o impulso e seu controle no esporte e no cotidiano. Esse descontrole pode ser observado em pessoas que frequentemente se envolvem em acidentes, brigas, confusões de transito, gritam, esmurram ou atiram coisas. Em situações menos evidentes, pessoas que desistem de uma prova e entregam em branco, abandonam projetos que apresentaram algum desafio ou dificuldade inicial.

Geralmente os mecanismos que estão por trás desses comportamentos estão relacionados a esquemas de autoproteção e autopreservação. A função primordial do cérebro é preservar a vida, ou seja, manter o indivíduo vivo. Em momentos de pressão real ou imaginada, o cérebro vai priorizar o funcionamento das funções vitais e dos mecanismos de luta ou fuga, deixando para segundo plano as funções mais sofisticadas do cérebro, como planejamento, antecipação de resultados, análise de consequências e estratégia, entre outras. Desta forma, o indivíduo consegue atacar e correr, mas não pensa direito.

A questão é: como conseguimos ser fortes, rápidos e dar respostas inteligentes, ao mesmo tempo?

O bom funcionamento das funções executivas é a base para dosar adequadamente o quanto de emoção, impulsividade e racionalidade virão à tona em processos de tomada de decisão. Por esta razão, esportistas e executivos vêm se dedicando a treinos que aliam o bom desempenho físico à alta performance intelectual e de administração de estresse, que se configuram como os diferenciais mais importantes diante de qualquer tipo de concorrência ou competição.

Para que o resultado desse processo de reeducação comportamental seja satisfatório é preciso treinar com diferentes métodos e estratégias até que esses procedimentos se tornem quase automáticos. Na realidade, são recursos para colocar o processo de tomada de decisão antes do impulso e automatizar essa sequência. Claro que isto não é fácil, mas é possível e respaldado por trabalhos científicos sérios e de grande valor para auxiliar pessoas expostas continuamente a situações de muito estresse.  

Toda a energia gerada em uma situação estressante precisa ser liberada de alguma forma, por exemplo, quando um jogador, como Neymar, não revida as seguidas faltas cometidas contra ele, mantém o esforço em situações fisicamente dolorosas, tenta manter-se eficiente e desaba em prantos com a vitória ao final do jogo, podemos observar um organismo funcionando biologicamente conforme o esperado. Anormal seria que se mantivesse sereno e comedido.

Isso não é diferente com os outros integrantes da nossa seleção, pois a pressão de fazer bonito em casa certamente independe das pressões externas, que não são poucas. Portanto, nossa seleção não é um bando de pessoas emocionalmente imaturas e sem controle de impulso, mas um grupo de jovens tentando conseguir o que esperam deles (e que eles próprios desejam), com uma carga de estresse suficientemente grande para redundar em descargas de alívio de tensão bem mais adequadas que sair “mordendo o amiguinho”.

Seja como for, não se trata de julgar o comportamento, mas de compreender e lembrar que ele se encontra no cotidiano, com pessoas que necessitam e podem ser ajudadas. A falta de controle de impulso e dificuldade em administrar o estresse gera problemas no campo afetivo, familiar, profissional e de convívio social. A pessoa intempestiva precisa ser cuidada, pois, após o ato impulsivo, por mais que ela tente se justificar ou procurar uma saída honrosa, intimamente tem consciência, ou ao menos a sensação, de que as coisas não funcionam bem assim.

Essas explosões não levam aos resultados esperados e desencadeiam uma onda de consequências indesejadas para o próprio indivíduo e para os outros envolvidos. Elas podem se tornar o fermento para o desenvolvimento de problemas paralelos como respostas ansiosas, depressivas, sentimento de inadequação e baixa autoestima.

Portanto, se você tem um nervosinho por perto, alerte sobre a possibilidade de ajuda e existência de soluções, já que no mundo adulto, esportivo e corporativo, as exigências por eficiência e adequação são cada vez maiores e os vacilos implacavelmente cobrados, como com os jogadores que estão expostos por todos os ângulos.

Texto publicado originalmente no Diário da Região de São José do Rio Preto, Caderno Vida & Arte, edição de 12 de julho de 2014.

 
 
 
 
 
 
 

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